4º Domingo da quaresma, 2025, Laetare
Dom Afonso VIEIRA, OSB
Irmãos e irmãs, no nosso “caminho da Quaresma”, a liturgia de hoje nos fala de vida nova, como que em um convite para chegarmos à essa Vida Nova, e a experimentá-la. Esse é o domingo que chamamos de Laetare, Domingo da Alegria! E hoje vemos um Evangelho que fala de um homem cego de nascença, preso em uma situação sem esperança, reduzido a sobreviver! Em termos humanos, não há esperança para ele além de algumas moedas diárias.
Além de não haver nada que pudesse ser feito em relação à sua cegueira de nascença, ele também carregava o pesado fardo social de uma grande impureza, o que explicaria as reações de todos em relação a ele. A explicação tradicional na época para uma pessoa deficiente de nascença era que a enfermidade só poderia ser a punição de um pecado, cometido pelo próprio indivíduo ou seus ancestrais. Em suma, esse homem estava irremediavelmente aprisionado por sua doença, numa deficiência e num status social marginalizante. Quando olhamos para essa situação com os olhos de hoje, podemos achar estranho, pois hoje temos outra cultura a respeito de doenças e deficiências. E sabemos que esse olhar que exclui nunca será o de Deus, de um Deus que nos faria pagar algo por meio de uma situação degradante. Às vezes, podemos nos sentir tentados pelo desprezo ou pelo comportamento de algumas pessoas a esperar que Deus as castigue, ou até mesmo a nos alegrar com seu infortúnio, dizendo a nós mesmos que foi bem feito e que há justiça no céu. Mas essa não é a atitude de Deus. Nós precisamos realmente tirar de nossas cabeças e de nossos corações essas imagens distorcidas e redutivas de um Deus vingativo. Deus nunca quer o infortúnio, a deficiência, a enfermidade ou a guerra. Ele não se alegra com o nosso sofrimento, mas, como fez na cruz, como faz hoje com esse homem cego de nascença, Ele é um Deus gentil e humilde, capaz de nos alcançar em meio ao nosso sofrimento. E isso nós vemos pelo que o próprio Jesus disse: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas as obras de Deus tinham de se manifestar nele. Sim, meus irmãos, o amor de Deus tinha que ser revelado livre e brilhantemente, mesmo que isso significasse provocar e levantar muitas questões, algumas mais benevolentes do que outras, e assim como Deus precisava desse cego para mostrar algo de suas maravilhas, ele precisa de nós para mostrar algo de seu plano benevolente de amor para todos. E essa cooperação não fluirá sem problemas. O caso desse cego pode nos ensinar alguma coisa, pois assim que seus olhos foram finalmente abertos, os problemas parecem se acumular para ele. Enclausurado em sua situação de mendigo cego, ele parecia estar bem à vontade, mas agora está enfrentando a incompreensão e até mesmo a hostilidade dos grandes do povo. Ele foi pego em um verdadeiro interrogatório do qual não se esquivou, demonstrando um sólido senso que lhe permitiu até mesmo o luxo de questioná-los: “Eu vejo, e vocês não ouvem, não escutam, não entendem… Vocês não veem! Mas ele explicou a eles o que Jesus havia feito, que era aplicar um pouco de lama em seus olhos, e foi então que ele viu pela primeira vez em sua vida.
Os homens não conseguiam entender que aquele cego era um novo homem, um homem renovado, que eles tinham agora diante de si, uma nova criação. Assim como Deus criou o homem a partir do barro, Jesus, com um pouco de barro em seus olhos, dá a ele não apenas a capacidade de enxergar, mas também a dignidade de um homem de pé, um filho da luz capaz de confessar livremente sua fé: “Creio, Senhor”. E aqui, a jornada desse cego mexe conosco ainda mais, no mais alto nível, porque nós também tivemos nossos olhos abertos para a verdadeira luz no dia do nosso batismo. Muitos de nós, obviamente, não se lembram do dia do batismo, pois éramos crianças na época, mas naquele dia, uma semente de luz foi plantada no fundo do nosso coração, onde Deus sabe como nos alcançar tão bem. Uma semente de luz que pode de se tornar uma luz cada vez mais brilhante para ser espalhada e compartilhada. Luz que produz fruto bom, justo e verdadeiro, como lemos na carta de São Paulo aos Efésios. Luz que nos faz olhar além das aparências, como Samuel fez com os filhos de Jessé. Luz que muitas vezes não nos permite acomodar-nos confortavelmente, mas que, ao contrário, pode ser um sinal de incompreensão para os outros que não suportam ver reveladas muitas falsas pretensões. Luz que também será um sinal de conversão, às vezes doloroso, forçando-nos a encarar nossa verdade de frente. Portanto, não tenhamos medo de deixar que essa graça exigente do batismo cresça em nossos corações, renovando-o, especialmente durante esta Quaresma, com o sacramento da reconciliação, por meio do qual tentamos reconhecer o que nos cega em nossas vidas, as áreas de sombra que facilmente deixaríamos como tal, os obstáculos e outros sofrimentos que diminuem nossa capacidade de amar, nossa pecaminosidade. Aventuremo-nos, irmãos, então, nessa luz, como o cego que, além da adversidade e da contradição, reconhece que, em Jesus, Deus o ama a ponto de não hesitar em alcançá-lo no coração de sua enfermidade, assim como procura alcançar todos nós no coração de nossas dificuldades, sofrimentos mais ou menos agudos, das nossas cruzes.
Nós também, nunca esquecendo as cegueiras e outras escravidões das quais Ele nos libertou e continua a querer nos libertar, ousemos, como esse cego, fazer um ato de fé, desejemos ver Deus, desejemos ser capazes de sermos “tocados por Deus”, para usar uma expressão de Santo Agostinho, ou seja, capazes de acolher mais plenamente esse Deus vivo de amor em cuja imagem fomos criados, cuja luz é, no entanto, formidável. “A glória de Deus é o homem vivo”, escreveu Santo Irineu de Lyon no século III, ‘e a vida do homem é ver Deus’.
A graça de nosso batismo nunca deixará de nos surpreender, portanto, nunca deixemos de recebê-la com alegria: Lætare!